Introdução
Quanto mais mergulhamos no universo de carreiras em UX/UI, mais percebemos enormes gaps de expectativas entre os contratantes e os contratados. Cada parte fala uma língua, trazendo suas próprias metodologias para a mesa de entrevista.
De um lado, empresas sabem da dificuldade de encontrar talentos e retê-los. De outro, profissionais sabem que precisam melhorar sua proposta de valor pessoal. E depois que acontece a contratação, é a hora da verdade — pois ambas as partes percebem a realidade.
Vamos abordar esse tema e como evitá-lo, explorando desde a síndrome do impostor até o valor da orientação em processos seletivos.
A síndrome do impostor
Em nossa experiência como recrutadores focados em UX/UI Designers, como já falamos em artigos anteriores, encontramos candidatos que apresentam posturas bem distintas:
- Por algumas vezes o profissional se vende bem, mas na realidade não é metade do que alega
- Por outras, o profissional não consegue se vender muito bem, mas quando lhe é dada uma oportunidade, ele mostra do que é capaz
Infelizmente, o ponto de equilíbrio entre esses dois cenários é muito difícil de se encontrar.
Nos atendo ao primeiro caso: o termo “síndrome do impostor” é mais conhecido fora do Brasil, e é um fantasma que assombra as empresas em geral. Todas têm receio de contratar e perceber que o profissional não é o esperado:
- Ou não tem as skills necessárias
- Ou não tem a experiência alegada
- Ou não consegue se adequar ao time/cultura da empresa
Já houveram casos de o profissional demorar certo tempo para ser “desmascarado” pela empresa, quando esta percebe que ele esteve se ancorando no resultado de seus colegas até que sua incompetência tomasse proporções visíveis.
O que fazer se você perceber que está no lugar errado?
Não arraste esse problema. Rapidamente comunique sua liderança sobre essa disparidade. Quanto antes esse ponto for esclarecido, menos prejuízo gerará para todos os envolvidos.
Se você for sincero, sua atitude será louvada e a empresa provavelmente avaliará a possibilidade para te alocar em outra função ou projeto. Mas se você der espaço e corpo a esse problema, no final do dia, o culpado será você e todos sairão perdendo.
Há uma máxima que empresas e líderes do mundo todo seguem: “Contrate o caráter, treine as habilidades.”
Consequências de uma contratação errada
O prejuízo gerado por uma contratação errada sempre é maior do que imaginamos. Além das consequências óbvias — perda de dinheiro e tempo — existe a perda humana, que é o principal problema.
Listamos abaixo 4 pontos principais decorrentes desse cenário:
1. Você perde
Mesmo que nosso mercado esteja em crescimento acelerado, ele ainda é demasiadamente pequeno comparado a outros. Independentemente de seu status, todos estamos construindo uma reputação no mercado.
Como citado em nosso artigo “Como aplicar a uma vaga de UX/UI Designer”, o principal indicador de nível de maturidade é a forma como outros profissionais o veem. Logo, atente para o fato de que um problema grave de comportamento pode manchar essa reputação que você está construindo.
Em adição, a comunidade de UX/UI Designers é muito unida, já que é composta por pessoas que se ajudam e automaticamente se conhecem. Não queira fazer a conta da velocidade de uma notícia ruim.
Mesmo com toda a tecnologia aplicada de hoje, a indicação ainda é um pilar na hora de contratar.
2. O time perde
Uma vez que você se ausenta (seja por desistência ou por demissão), estando inserido a um projeto e interagindo diariamente com pessoas, é evidente que há impacto para os outros integrantes de sua equipe com sua saída.
Até que a empresa encontre, avalie e contrate um substituto, as pessoas terão que trabalhar mais para cobrir a sua falta, o que vai prejudicar frontalmente sua produtividade e sinergia.
Além disso, quando a nova pessoa chegar, ainda haverão de atualizá-la de todo o projeto e ter a paciência para dar o tempo necessário a ela se adaptar.
3. O projeto perde
Em decorrência do impacto na equipe, é uma reação em cadeia:
- Sprints podem ser adiadas
- Pesquisas serem atrasadas
- Protótipos serem entregues com erros
- Deadlines serem perdidos
Como resultado, a reputação de todo o time perante os stakeholders pode perder força, o que vem a um custo muito alto para reconstruir.
4. A empresa perde
Por fim, quem paga a conta no final do mês é diretamente afetado. Esse é um ponto que poucos UX/UI Designers levam em consideração: Quanto você custa para empresa? Quanto ela investiu para te encontrar, contratar, e logo (ter que) te desligar?
Pensar apenas no seu salário é como ver a ponta do iceberg. Lembre-se que se não fosse a coragem, ousadia, determinação, foco, resiliência e muito suor dos fundadores e da liderança da empresa, não haveria projeto e você não teria sequer tido essa oportunidade.
Gestão de expectativas
Conforme citamos em “Boas oportunidades: Como não perdê-las”, existem pontos fundamentais para que não falte e nem sobre informação em cada momento do processo seletivo. Nesse artigo, listamos os erros mais comuns que acontecem antes, durante e depois de aplicar a uma vaga.
Lembre-se sempre que o tempo a ser investido em você é extremamente curto, por isso ser prático e objetivo faz toda a diferença. E diga-se de passagem, esses fatores fazem parte da sua avaliação como um todo.
Não pense que um portfolio atualizado e um currículo bonito são suficientes: O desafio aqui pontuado é surpreender em cada etapa, e gradativamente, construir a imagem real e ideal de você.
Apresente-se bem, sem exageros
A forma como você aborda o recrutador já diz muito sobre você. Uns preferem não escrever nada, nem seu próprio nome; Outros, contam uma “breve” história de sua carreira.
A medida certa nesse momento é simplesmente apresentar-se objetivamente, dizer como chegou à vaga e listar seus principais links (Portfolio e LinkedIn). Não custa dizer que é extremamente importante que esses links funcionem.
Para surpreender: seja rápido, objetivo e único, com um discurso claro.
Envie um material alinhado a seu momento atual
Como citamos no artigo “Como aplicar a uma vaga de UX/UI Designer”, de nada adianta mostrar sua vasta experiência anterior se ela não for de UX/UI.
Se você deseja ser avaliado como um UX Sênior, seus cases devem ter a qualidade, a consistência e a profundidade esperados desse nível de profissional.
Logo, tenha certeza de seu nível de maturidade, alinhe seus projetos a esse nível e somente aplique a vagas que pedirem exatamente esse perfil.
Para surpreender: Só envie um portfolio que você tenha orgulho e que saiba explicar cada vírgula de cada projeto.
Demonstre propriedade, segurança e experiência na entrevista
Estranhamente, muito poucos candidatos perguntam detalhes sobre a vaga antes de aplicar. Logo, quando vão à entrevista (o momento de ouro em que a empresa já está interessada), sabem tão pouco sobre a vaga que ficam perdidos nas respostas.
Ou ainda pior: percebem que estão no lugar errado, e que tomaram o tempo de outras pessoas em vão.
Esteja mentalmente pronto, com certeza de sua experiência e propriedade sobre seus projetos para responder qualquer pergunta, e genuinamente interessado na vaga.
Para surpreender: Seja o primeiro a chegar, responda às perguntas com convicção e só fale quando lhe for dada a palavra.
Adequando-se à vaga
Quem nunca quis impressionar mostrando tudo que sabe fazer? É tentador apresentar a totalidade de experiências — de áreas, setores, estilos e tipos de projeto — na esperança de ampliar ao máximo as chances em uma vaga.
Mas esse é um erro comum, especialmente entre UX/UI Designers: tentar abraçar o mundo pode diluir o que realmente importa para a posição que está aberta.
O caminho mais inteligente é a “adequação à vaga”. Isso significa olhar com atenção para o que a empresa realmente está buscando e adaptar não só seu portfólio, mas também discurso e perfil para essas necessidades específicas.
Não ter experiência no segmento da vaga? Isso, por si só, não elimina você. Pelo contrário: ao evidenciar outras qualidades e saber contextualizá-las, você demonstra maturidade, abertura e inteligência estratégica.
A capacidade de adaptação e o raciocínio na curadoria do próprio material já marcam pontos importantes para quem avalia.
Adequar-se não é sobre moldar-se sem personalidade, mas sobre usar seu repertório com intenção — mostrando-se preparado para contribuir, mesmo diante de desafios fora da sua zona de conforto.
O valor da orientação em processos seletivos
Pedir um feedback é fácil, receber — e aplicar de verdade — já é bem diferente. Mesmo entre profissionais criativos acostumados a defender ideias, poucos se sentem genuinamente confortáveis diante de críticas, ainda que construtivas.
E quando falamos de processos seletivos para UX/UI Designers, esse desconforto pode se intensificar: o portfólio é revisado, trajetórias são questionadas, posicionamentos são discutidos.
Como transformar esse cenário? O segredo está em enxergar cada orientação dos recrutadores como um verdadeiro aliado: uma ponte entre o profissional que você é hoje e o profissional que o mercado busca.
Recomendações práticas para tornar as orientações mais efetivas
a) Alinhamento de expectativas
Se um recrutador foi atrás de você, significa que existe interesse real no seu perfil. Este é o melhor ponto de partida.
Saber ouvir as orientações que vêm depois dessa abordagem é essencial: são ajustes pensados justamente para impulsionar sua candidatura.
Entenda que o processo seletivo é colaborativo, não uma prova de resistência. Resistir sistematicamente às sugestões ou não demonstrar abertura pode ser interpretado como falta de interesse ou desalinhamento de valores — algo nada positivo para quem quer avançar no processo.
b) Alinhamento de portfolio
Relevância é palavra de ordem. Destacar projetos mais antigos ou menos detalhados, desde que estejam mais conectados com a vaga, faz todo sentido.
O recrutador precisa enxergar no seu portfólio exatamente o que está buscando — por isso, a curadoria cuidadosa do material apresentado vale tanto quanto os próprios projetos.
Organize seu portfólio de forma prática, guiando o olhar para os cases que dialogam diretamente com a necessidade da empresa. Assim, evita interpretações equivocadas e direciona a avaliação para aquilo que realmente importa.
c) Evitar subqualificação ou superqualificação
Cada vaga tem seu tom de profundidade. Apresentar apenas telas finais e resultados visuais pode desinteressar uma empresa que espera ver seu raciocínio estratégico e capacidade analítica.
Por outro lado, ir fundo demais pode soar deslocado em vagas mais técnicas ou de entrada, onde se espera resolução de tarefas mais objetivas.
O ideal é calibrar a exposição do conteúdo — nem menos, nem mais; na medida da maturidade em design que o time e a vaga demandam.
d) Trabalhar o discurso pessoal
Nas fases iniciais do processo, o foco deve ser profissional. Preferências pessoais são importantes, mas precisam dar lugar à clareza sobre suas competências e objetivos.
Evite títulos ou descrições genéricas (ou inconsistentes) com a vaga; alinhe sua autoapresentação para que sua trajetória “converse” diretamente com o que está em análise.
Confiança não é sobre inflar o próprio título, mas sim sobre ser verdadeiro em relação ao que você oferece e deseja. Isso torna a comunicação mais fluida e evita ruídos e expectativas desalinhadas.
Seja rebelde, não arrogante
Sua postura “chega” antes de você em todo processo seletivo — seja em mensagens, e-mails, entrevistas ou até na entrega do portfólio. Empresas (especialmente em design) estão atentas a padrões comportamentais que possam representar riscos ao ambiente de trabalho e à colaboração.
Lembre-se: aceitar uma vaga não é submissão, é uma escolha mútua. A empresa vê valor no seu potencial e aposta em você. Em troca, espera não só competência técnica, mas atitude colaborativa e espírito construtivo.
Seja questionador quando necessário, mas evite posturas combativas ou de resistência desnecessária. O candidato estratégico é aquele que está disposto a construir junto — ajustando, sugerindo e, acima de tudo, escutando.
O que você está disposto(a) a fazer para ser contratado?
Aí está a pergunta central: até onde você se dispõe a ajustar seu discurso, seu portfólio e seu modo de apresentar para conquistar uma vaga?
O processo começa com o interesse da empresa, mas a real conversão depende do seu preparo, da sua escuta ativa e da sua disposição para crescer.
Encare cada crítica — ainda que dolorosa — como um convite à evolução. Investigue o contexto, estude a empresa, questione-se sobre os pontos levantados e aja continuamente em busca de melhoria.
Não é só sobre “passar” numa seleção; é sobre se tornar, a cada feedback, um(a) profissional mais completo(a) e mais pronto para entregar valor onde for atuar.
Conclusão
Para evitar turnovers, deve-se pensar nele desde a aplicação à vaga. Seja claro sobre você mesmo, de forma a ajudar os avaliadores a terem a impressão correta sobre você.
Perceber que está no lugar errado já estando no lugar errado é extremamente prejudicial não apenas a você, mas principalmente aos envolvidos em todo o processo.
Todo processo seletivo é, também, um processo de aprendizagem. Mesmo que não leve à contratação, sempre há uma lição — e uma nova possibilidade de ajuste e aprimoramento.
Receber críticas com humildade (e agir rapidamente para implementá-las) faz parte do desenvolvimento de uma carreira sólida e resiliente. O crescimento está justamente em transformar cada orientação em degrau para seu próximo salto.



